Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas
Nada contava nem tinha nome
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o Outono.
Pablo Neruda
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Ai que friooooo!!!
Foto: Reuters
Despidos contra o uso de peles na indústria da moda, rodeados de gente curiosa de casaco bem quentinho vestido. Em Barcelona há quem se manifeste. Há quantos anos começaram a tirar a roupa por uma causa? Por esta causa? Que consequências? Não calam o seu ideal, nem que para isso seja preciso encostar a pele nua no asfalto, enquanto para si olha alguém que hoje veste o que outrora respirava.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Segunda-feira
Sinto-me assoberbada pela vida, pela ideia que dela tenho numa segunda-feira pela manhã.
Assoberbada pelo quebrar do vigor esperançoso do fim de semana.
Assoberbada por hoje e por amanhã pelo que está e pelo que há-de vir, pelo que passou e pelo que já nunca sucederá.
Assoberbada pela vida quotidiana, pelos gestos que se repetem, à mesma hora, que demoram o mesmo tempo, que ocupam o mesmo espaço mental, que nos roubam alento para o que verdadeiramente interessa. Assoberbada por ter de pôr um pé a seguir ao outro e erguer a cabeça e assoberbada por ter de agradecer que assim possa ser. Assoberbada a cada garfada que dou no prato cheio, pela toalha que reflete sempre a mesma expressão apática, pela faca que não cessa de serrar para a frente e para trás, pelo guardanapo usa e deita fora que é igual a mil outros e não mais vou ver. Assoberbada por pensar que assim ainda é bom, que pode ser muito pior. Assoberbada com o incontrolável dia-a-dia tocado ao teclado do computador. Assoberbada por algo que antes era o longe risonho e esperançoso, luminoso, aberto, inesperado e desafiante e hoje é o amanhã nubloso e repetido, responsável, cinzento, maduro e sério.
Assoberbada pelas pessoas que comigo se cruzam, pelas muitas vidas que nunca terei, pelos corpos que não habitarei, pelas brilhantes ideias que nunca me ocorrerão, pelos olhos que me viram e pelos que me ignoraram, pelas mentes que me recordam e pelas que me esqueceram, pelos corações em que nunca tocarei.
Assoberbada pelo tempo que o relógio demora a chegar ali e depois como corre célere e imparável, a pique na descida acentuada. Assoberbada pelo que há-de vir, pelo que aí vem, o que há-de vir?
Assoberbada pela vida quotidiana, pelos gestos que se repetem, à mesma hora, que demoram o mesmo tempo, que ocupam o mesmo espaço mental, que nos roubam alento para o que verdadeiramente interessa. Assoberbada por ter de pôr um pé a seguir ao outro e erguer a cabeça e assoberbada por ter de agradecer que assim possa ser. Assoberbada a cada garfada que dou no prato cheio, pela toalha que reflete sempre a mesma expressão apática, pela faca que não cessa de serrar para a frente e para trás, pelo guardanapo usa e deita fora que é igual a mil outros e não mais vou ver. Assoberbada por pensar que assim ainda é bom, que pode ser muito pior. Assoberbada com o incontrolável dia-a-dia tocado ao teclado do computador. Assoberbada por algo que antes era o longe risonho e esperançoso, luminoso, aberto, inesperado e desafiante e hoje é o amanhã nubloso e repetido, responsável, cinzento, maduro e sério.
Assoberbada pelas pessoas que comigo se cruzam, pelas muitas vidas que nunca terei, pelos corpos que não habitarei, pelas brilhantes ideias que nunca me ocorrerão, pelos olhos que me viram e pelos que me ignoraram, pelas mentes que me recordam e pelas que me esqueceram, pelos corações em que nunca tocarei.
Assoberbada pelo tempo que o relógio demora a chegar ali e depois como corre célere e imparável, a pique na descida acentuada. Assoberbada pelo que há-de vir, pelo que aí vem, o que há-de vir?
Bolas de sabão no prédio da frente
Da janela saiu finalmente o 'aluga-se t2' para dar lugar a cortinas coloridas. Chegaram este fim de semana e a primeira coisa que os vi fazer foi instalar uma antena parabólica na varanda, virada de frente para a minha cozinha.
Três miúdos, um irmão mais velho, aí de uns 12 ou 13 anos, e dois mais novos, 9 ou 10, rodopiavam em torno do circulo mágico, que vai atenuar, não sei se as saudades de casa, ou animar os hábitos adolescentes internacionais.
Não sei se são paquistaneses, indianos ou do Bangladesh. Não sei distingui-los da mesma forma que sou capaz de intuir a diferença entre chineses e japoneses.
Sei que são três crianças, naquela idade em que tudo fica na retina. Desse tempo recordamos normalmente os sítios em que vivemos e crescemos, em que mudámos. Imagino que vão recordar-se daquela rua só de um sentido por toda a sua vida, e daquela varanda onde se impunha a antena, e talvez da vizinha do prédio da frente que olha, na sua varanda, enquanto ri da alegria dos miúdos que, até estar tudo a funcionar, para se instalarem frente ao ecrã, fazem bolas de sabão no rectângulo de ar livre da sua nova casa.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Au revoir Simone
Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres, disse Simone de Beauvoir que completaria 100 anos dia 9 deste mês.
O que nos faz tornar hoje mulher? Com as convenções sociais em mudança, sem a rigidez de outros tempos que envolvia o feminino num apertado espartilho de normas de comportamento, hoje tudo será possível.
Ainda não li o seu 'Segundo Sexo', mas já li sobre ele e a propósito da distinção que se estabelece entre sexo e género.
Hoje é um tema quase banal, mas então não era. O género será o que nos 'torna' qualquer um dos dois lados, influenciados pela sociedade e pela cultura, em oposição ao sexo com o qual nascemos.
Mesmo nesse aspecto se pode agora acrescentar um terceiro item, porque a transformação física é possível e também ela cada vez mais comum.
Sem limites, a não ser os da própria identidade e vontade, será mais fácil definirmos o nosso papel, mas será ainda possível 'tornarmo-nos mulheres'?
Como olharia Simone para o modus vivendi nesta época em que não há limites?
Com Jean-Paul Sartre viveu um amor também incomum para a época. Uma relação aberta a terceiros que permitiria a ambos explorarem as suas liberdades individuais, enquanto se mantinham unidos pelo amor e pela filosofia.
Seré que Simone gostaria de ver o caminho que tomaram hoje as mulheres - e os homens - ou ficaria desiludida com as conquistas e perdas que nos tornaram escravas, já não só da nosso papel feminino, mas de todos os outros que hoje também temos de desempenhar?
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Tampa da sanita... e outras manias
Se eu soubesse como, desenvolvia uma ideia que há muito me persegue: criar uma espécie de alarme que bloqueasse a saída da casa de banho a quem deixasse a tampa da sanita para cima.
Podia também emitir um som estridente e luzes tipo sirene, para não passar incólume.
Só comparável é o indelével hábito - que já descobri ser universal - de coleccionar rolos de papel higiénico vazio por cima do autoclismo. Estou quase a oferecer-me para passar a guardar e trazer lá de casa uns quantos, a ajudar o(s) acérrimo(s) coleccionador(es) do meu escritório. Questiono-me se acumularão igualmente outro tipo de lixo pelas suas casas fora...
Uma vez, no meio de semelhante conversa de casa de banho, alguém ainda me perguntou, do alto do seu desplante - "mas qual é o problema, nós (gajos) também temos de a levantar". O mais grave é que a pessoa em questão nem sequer sabia do que eu estava a falar. Entrar em detalhes, explicando que era da tampa de baixo que se tratava, e pormenorizando o desagradável de ter de a baixar apoiando a mão no local onde os rabos se instalam - foi o cúmulo. Para quem a levanta, será mais fácil baixá-la, no fim, antes de lavar as mãos, parece-me.
Para terminar, gostaria apenas de salientar que entre a colecção de rolos vazios - davam uma bela e representativa peça de arte, oh Joana Vasconcelos, que já fizeste um candelabro com tampões - e a tampa levantada, também há uma forma correcta de instalar o rolo (cheio) no seu suporte. É aquela em que o papel se puxa a partir de cima, facilitanto a extracção do dito. Ao contrário, é bem mais complicado.
Só comparável é o indelével hábito - que já descobri ser universal - de coleccionar rolos de papel higiénico vazio por cima do autoclismo. Estou quase a oferecer-me para passar a guardar e trazer lá de casa uns quantos, a ajudar o(s) acérrimo(s) coleccionador(es) do meu escritório. Questiono-me se acumularão igualmente outro tipo de lixo pelas suas casas fora...
Uma vez, no meio de semelhante conversa de casa de banho, alguém ainda me perguntou, do alto do seu desplante - "mas qual é o problema, nós (gajos) também temos de a levantar". O mais grave é que a pessoa em questão nem sequer sabia do que eu estava a falar. Entrar em detalhes, explicando que era da tampa de baixo que se tratava, e pormenorizando o desagradável de ter de a baixar apoiando a mão no local onde os rabos se instalam - foi o cúmulo. Para quem a levanta, será mais fácil baixá-la, no fim, antes de lavar as mãos, parece-me.
Para terminar, gostaria apenas de salientar que entre a colecção de rolos vazios - davam uma bela e representativa peça de arte, oh Joana Vasconcelos, que já fizeste um candelabro com tampões - e a tampa levantada, também há uma forma correcta de instalar o rolo (cheio) no seu suporte. É aquela em que o papel se puxa a partir de cima, facilitanto a extracção do dito. Ao contrário, é bem mais complicado.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Prioridades
Em tempos estive em primeiro na lista. Quem me acarinha sempre que preciso, sem horas nem regras.
Em tempos abundavam os ombros onde encostar a cabeça. Era bom saber que lá estavam, acho eu agora, just in case.
Em tempos fui eu ombro também, e ainda hoje.
Ontem deixei de ter ombro e ouvido em que lançar um lamento. Ontem calei-o e tornei muda e seca a lágrima.
Ontem fechei o peito à chave para que não saia sem querer um reclamo, para que o peito direccione previamente até onde quer, ou, antes, até onde pode ir.
Ontem nasceu uma esperança e morreu um hábito tão antigo como o meu próprio ser, de lá estares sempre à mão, de ouvido pronto e colo aberto.
Fui perdendo aos poucos a capacidade de me expor, por medo do acolhimento, que cada dia escasseia um pouco mais.
Ontem perdi-te e hoje não te recupero. Não volto a encostar-me a ti.
Emo, ou a nova geração
"Tenho cerca de 17 anos" - li hoje esta pérola num fórum para miúdos e graúdos e deu-me logo para falar mal da nova geração rasca. A nova, porque a minha também já foi rasca, mas agora é lutadora, trabalhadora, profissional e competente. E já critica a outra, a mais jovem, a 'geração playstation'.
"Não têm imaginação, não sabem pensar, têm tudo o que querem desde muito cedo, são tão mimados, não lêem, não sabem escrever, passam a vida a mandar sms (mas foram capazes de criar uma nova linguagem... mais simples...)" são alguns dos argumentos arremessados contra os mais jovens. Nada disto deixará de ser verdade, num primeiro olhar. Mas noutro, mais além, podemos facilmente recordar que TODAS as gerações mais novas, ao longo da história recente, foram classificadas como menos capazes do que as suas antecessoras. Não há nada a fazer, os jovens são sempre diferentes. Quase sempre incompreendidos. Para poderem mudar o mundo têm de cortar com o pré-estabelecido, com a ordem, tal como todos nós fizemos a dada altura. É certo os 'jovens de agora' - conversa caduca - não lêem tanto, mas têm outras tantas solicitações que eu não tive. Não conheci a internet aos 4 anos de idade, mas aos 18, quando o essencial em mim já estava formado. Tive o meu primeiro telemóvel com a mesma idade. E computador, só depois dos 20. É óbvio que teria de ser diferente. É também óbvio que "no meu tempo", passar 70% do tempo a ler e o resto a ver televisão e a brincar na rua com os outros miúdos, era a coisa mais natural do mundo.
É também assustador verificar que já existe uma geração inteira a seguir a mim, com manias próprias, e que eu posso com toda a propriedade - embora não confortavelmente - usar expressões como "naquele tempo" ou "há 20 anos atrás". Mas ao que interessa. Os mais novos têm muito mais competências tecnológicas do que nós alguma vez teremos. Isso garante-lhes sucesso numa sociedade em mudança, que vive hoje ATRAVÉS da tecnologia. Isso é evolução. E não há quem pare a evolução. Ah! Emo é, para quem não sabe, uma nova moda que, como sempre, reúne numa forma de estar e vestir influências musicais, culturais e, eventualmente, tem também drogas próprias. Pode ser descrito, de forma algo redutora, como uma espécie de anos 80 revisitados, com telemóveis à mistura - até os all star regressaram. Para perceber como se revela - mas não o que é - basta olhar para um qualquer grupo de adolescentes.
"Não têm imaginação, não sabem pensar, têm tudo o que querem desde muito cedo, são tão mimados, não lêem, não sabem escrever, passam a vida a mandar sms (mas foram capazes de criar uma nova linguagem... mais simples...)" são alguns dos argumentos arremessados contra os mais jovens. Nada disto deixará de ser verdade, num primeiro olhar. Mas noutro, mais além, podemos facilmente recordar que TODAS as gerações mais novas, ao longo da história recente, foram classificadas como menos capazes do que as suas antecessoras. Não há nada a fazer, os jovens são sempre diferentes. Quase sempre incompreendidos. Para poderem mudar o mundo têm de cortar com o pré-estabelecido, com a ordem, tal como todos nós fizemos a dada altura. É certo os 'jovens de agora' - conversa caduca - não lêem tanto, mas têm outras tantas solicitações que eu não tive. Não conheci a internet aos 4 anos de idade, mas aos 18, quando o essencial em mim já estava formado. Tive o meu primeiro telemóvel com a mesma idade. E computador, só depois dos 20. É óbvio que teria de ser diferente. É também óbvio que "no meu tempo", passar 70% do tempo a ler e o resto a ver televisão e a brincar na rua com os outros miúdos, era a coisa mais natural do mundo.
É também assustador verificar que já existe uma geração inteira a seguir a mim, com manias próprias, e que eu posso com toda a propriedade - embora não confortavelmente - usar expressões como "naquele tempo" ou "há 20 anos atrás". Mas ao que interessa. Os mais novos têm muito mais competências tecnológicas do que nós alguma vez teremos. Isso garante-lhes sucesso numa sociedade em mudança, que vive hoje ATRAVÉS da tecnologia. Isso é evolução. E não há quem pare a evolução. Ah! Emo é, para quem não sabe, uma nova moda que, como sempre, reúne numa forma de estar e vestir influências musicais, culturais e, eventualmente, tem também drogas próprias. Pode ser descrito, de forma algo redutora, como uma espécie de anos 80 revisitados, com telemóveis à mistura - até os all star regressaram. Para perceber como se revela - mas não o que é - basta olhar para um qualquer grupo de adolescentes.
domingo, 20 de janeiro de 2008
Liquidação total
Segue de mala em riste, bem grande. Gloss, escova, grande carteira cheia de cartões de cliente, 3 telemóveis, pacote de pastilhas elásticas e lista de compras fazem peso no malão, prontas pró arremesso.
Os saltos agulha completam o traje de batalha urbana que se trava dentro de uma loja em saldos. Se houver leopardo à mistura, melhor ainda. Roupa, calçado e malas são as preferidas, Mas há outras.
Olhos furtivos remexem cada peça de roupa como se hoje fosse o último dia na terra dos saldos. As únicas são muito solicitadas, podendo mesmo levar a um ligeiro início de guerra entre duas caçadoras de trapos. Olhos nos olhos, um na rival, outro na camisola, ganha a mais arisca, para até mais tarde, no vestuário, decidir levar antes uma das outras 27 peças que experimentou. Ou nenhuma. Ou as 27.
Tenho notado que o conceito de 'última oportunidade' funciona bem. Mas nem era preciso escreverem tal coisa nas montras, porque essa parece ser a única mensagem que paira sobre a cabeça das muitas fêmeas que correm para as suas lojas favoritas em busca do discount da estação.
Não terão chegado os mil sacos de prendas do natal para tudo o que é prima, tia, sobrinha, afilhado e colega do trabalho e vizinho e amiga e senhor do quiosque? As discussões intermináveis porque 10 milhões de pessoas não conseguem raciocinar se forem todas ao mesmo tempo às compras? Nem sequer concretizar com sucesso as ditas? Se calhar vai-se agora comprar uma pecinha low cost para relaxar do stress natalício. Brilha o cartão de crédito de máquina em máquina. Como é de plástico, nem se dá conta que vai esgotando, esgotando... Mas é tão lindo e agora barato, como resistir?
Olho para o lado e, um pouco mais acima dos sacos há um stencil 'o consumismo tirou-me a virgindade'. Ainda vou a pensar nisto quando me deparo com um claro: 'vive mais, consome menos'.
Olhos furtivos remexem cada peça de roupa como se hoje fosse o último dia na terra dos saldos. As únicas são muito solicitadas, podendo mesmo levar a um ligeiro início de guerra entre duas caçadoras de trapos. Olhos nos olhos, um na rival, outro na camisola, ganha a mais arisca, para até mais tarde, no vestuário, decidir levar antes uma das outras 27 peças que experimentou. Ou nenhuma. Ou as 27.
Tenho notado que o conceito de 'última oportunidade' funciona bem. Mas nem era preciso escreverem tal coisa nas montras, porque essa parece ser a única mensagem que paira sobre a cabeça das muitas fêmeas que correm para as suas lojas favoritas em busca do discount da estação.
Não terão chegado os mil sacos de prendas do natal para tudo o que é prima, tia, sobrinha, afilhado e colega do trabalho e vizinho e amiga e senhor do quiosque? As discussões intermináveis porque 10 milhões de pessoas não conseguem raciocinar se forem todas ao mesmo tempo às compras? Nem sequer concretizar com sucesso as ditas? Se calhar vai-se agora comprar uma pecinha low cost para relaxar do stress natalício. Brilha o cartão de crédito de máquina em máquina. Como é de plástico, nem se dá conta que vai esgotando, esgotando... Mas é tão lindo e agora barato, como resistir?
Olho para o lado e, um pouco mais acima dos sacos há um stencil 'o consumismo tirou-me a virgindade'. Ainda vou a pensar nisto quando me deparo com um claro: 'vive mais, consome menos'.
sábado, 19 de janeiro de 2008
Portishead!!!
Eles vêmmmmm aí!!! e vou vê-los de novo (a primeira vez foi no Sudoeste). Desta vez será bastante mais intimista, como convém, no Coliseu.
Espero receber antes de se esgotarem os bilhetes...
Fica uma das minhas favoritas, Roads, caminhos que percorri até aqui, reflexo das muitas viagens e ilusões do tempo passado a ouvi-los...
Agora é o vídeo, então era uma k7 que tocou até à exaustão...
África, a sedutora
A primeira coisa que senti quando pus um pé em África foi a humidade, avassaladora, como se um feiticeiro sugasse a minha alma e a embebesse numa densa película, para a conservar.
Ainda antes de aterrar já tinha me tinha emocionado com a extensão imensa, o plano, os infindáveis bairros de lata onde, até mesmo ao limite do aeroporto se impunham pequenas e frágeis casas.
Um campo de futebol improvisado, onde miúdos jogavam logo pela manhã anulou um pouco o aperto no peito que causa, lá de cima, mas cá de baixo também, a miséria terceiro-mundista.
Depois, tudo o resto. A espontaneidade, o prazer, o negro brilhante da pele e a natureza, a música, os sons e até o ar carregado de pó.
Terra virgem que seduz sem tréguas.
Aqui ficam algumas imagens.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Não havia magia nos bastidores
Nem tudo é o que parece, já se sabe.
Neste carrossel de veludo acetinado, o forro está roto.
Por vezes sucede olhar mais de perto para algo que admirava ou mesmo, invejava (esse pecado mortal) para dar conta de que afinal, o que aparentava encanto e fascínio, está podre por dentro.
Quando era miúda todos os anos ia ao circo. Era um mundo de fantasia que associava à aventura suprema. Aquela que corresponde a um desafio diário e a uma vivência sempre diferente do comum mortal. Talvez para fugir a essa sensação (a de estar ali naquela dura cadeira de madeira sentada, sentindo-me uma mera comum mortal) sempre tive um pouco alma de artista. E pouco mais. Na altura via o circo como um universo fascinante e glamouroso, em que os artistas viveriam em constante exaltação e aventura. Os meus favoritos eram os trapezistas. Ainda hoje estremeço ao soar desta palavra. t r a p e z i s ta. Depois de muito desejar conhecer 'o outro lado', que idealizava ainda mais emocionante, porque real, palpável - descobri que não era bem assim. Os fatos cintilantes e a maquiagem garrida escondiam uma vida diferente, é certo, mas sem banheiras, livros e outros elementos civilizacionais que considero importantes. E ainda - eles tinham o seu próprio quotidiano. Tão banal quanto para mim pôr a mochila às costas e ir para escola aprender a multiplicar.
Mais tarde apercebi-me ainda da questão dos animais. Seriam felizes ali, privados da sua liberdade, do seu mundo, da sua família e amigos - do seu habitat? Estariam ali de livre vontade? Dificilmente, a avaliar pelo chicote... A tomada de consciência de que a vida do circo não era mágica foi mil vezes mais intensa e desconcertante do que descobrir que não havia pai natal. Tudo passei a olhar com outros olhos, mas ainda hoje me engano.
Há seja quem dotado de tal ego, capaz de dizer as maiores babaridades e ainda fazer outros crer que sim, que a pessoa é iluminada. Convencendo os outros, vão-se convencendo a si próprios, perpetuando o alimento do ego num círculo sem fim. I Wich. RP rule the world... Perto de alguns artistóides, os homens e mulheres do circo são banais, na sua capacidade de transformar o objecto em magia. Por um momento, é certo. Ainda assim, beleza etérea, que se retém, que dá e alimenta. Não uma rajada de vento desagradável que se quer impôr. Uma feia ilusão. Olhando de perto, está oco. Basta um sopro e descompõe-se o discurso, depois a ideia e a imagem. O Rei vai nu! Mas fala mal dos trapos de quem o contorna. Há os que pensam, os que executam e os que mostram. Todos são precisos. Mas alguns podiamcalar-se um pouco, que ensurdecem.
E um ego há-de ser do tamanho de uma ervilha? E isto, é um bastidor?
Por vezes sucede olhar mais de perto para algo que admirava ou mesmo, invejava (esse pecado mortal) para dar conta de que afinal, o que aparentava encanto e fascínio, está podre por dentro.
Quando era miúda todos os anos ia ao circo. Era um mundo de fantasia que associava à aventura suprema. Aquela que corresponde a um desafio diário e a uma vivência sempre diferente do comum mortal. Talvez para fugir a essa sensação (a de estar ali naquela dura cadeira de madeira sentada, sentindo-me uma mera comum mortal) sempre tive um pouco alma de artista. E pouco mais. Na altura via o circo como um universo fascinante e glamouroso, em que os artistas viveriam em constante exaltação e aventura. Os meus favoritos eram os trapezistas. Ainda hoje estremeço ao soar desta palavra. t r a p e z i s ta. Depois de muito desejar conhecer 'o outro lado', que idealizava ainda mais emocionante, porque real, palpável - descobri que não era bem assim. Os fatos cintilantes e a maquiagem garrida escondiam uma vida diferente, é certo, mas sem banheiras, livros e outros elementos civilizacionais que considero importantes. E ainda - eles tinham o seu próprio quotidiano. Tão banal quanto para mim pôr a mochila às costas e ir para escola aprender a multiplicar.
Mais tarde apercebi-me ainda da questão dos animais. Seriam felizes ali, privados da sua liberdade, do seu mundo, da sua família e amigos - do seu habitat? Estariam ali de livre vontade? Dificilmente, a avaliar pelo chicote... A tomada de consciência de que a vida do circo não era mágica foi mil vezes mais intensa e desconcertante do que descobrir que não havia pai natal. Tudo passei a olhar com outros olhos, mas ainda hoje me engano.
Há seja quem dotado de tal ego, capaz de dizer as maiores babaridades e ainda fazer outros crer que sim, que a pessoa é iluminada. Convencendo os outros, vão-se convencendo a si próprios, perpetuando o alimento do ego num círculo sem fim. I Wich. RP rule the world... Perto de alguns artistóides, os homens e mulheres do circo são banais, na sua capacidade de transformar o objecto em magia. Por um momento, é certo. Ainda assim, beleza etérea, que se retém, que dá e alimenta. Não uma rajada de vento desagradável que se quer impôr. Uma feia ilusão. Olhando de perto, está oco. Basta um sopro e descompõe-se o discurso, depois a ideia e a imagem. O Rei vai nu! Mas fala mal dos trapos de quem o contorna. Há os que pensam, os que executam e os que mostram. Todos são precisos. Mas alguns podiamcalar-se um pouco, que ensurdecem.
E um ego há-de ser do tamanho de uma ervilha? E isto, é um bastidor?
A abrir
Depois de anos a escrever o que acho aqui e ali, e já consciente de a poucos interessará o meu olhar sobre as pedras da calçada - a esfera pelo obtuso - decido atirar os meus pensamentos para essa grande rede, como se do espaço infinito se tratasse.
Diário (ou semanário, ou mesmo mensário) de bordo, para inquietações presentes e futuras que só a mim interessarão, mas que optei vomitar para o mundo a ver se não sou a única. A ver se há eco.
Depois de um ano cozido a banho maria, praticamente sem nada a assinalar que não as viagens - precedido de outro bastante inquietante e recheado de mudanças - resolvo abanar aqui e ali, mudar-me outra vez, renovar a capa ao meu diário. O bordo continua cinzento, chuvoso, vazio e agora também mais restritivo. A beleza do fumo a sair por entre os dedos numa mesa de café onde predomina esse odor inebriante, entre uma folha e outra de jornal, deixou de ser possível. E isso entristece-me.
Estamos todos cada vez mais pobres, cada vez mais feios e velhos, desgastados tanto que nem vigor há para erguermos a voz.
Do outro lado da barricada estamos cada vez mais clean, mais ricos e sofisticados, mais tecnológicos. A cada dia mais cagões.
E eu, onde estou? Abano a corda, a ver se resulta. A ver se resulta.
Diário (ou semanário, ou mesmo mensário) de bordo, para inquietações presentes e futuras que só a mim interessarão, mas que optei vomitar para o mundo a ver se não sou a única. A ver se há eco.
Depois de um ano cozido a banho maria, praticamente sem nada a assinalar que não as viagens - precedido de outro bastante inquietante e recheado de mudanças - resolvo abanar aqui e ali, mudar-me outra vez, renovar a capa ao meu diário. O bordo continua cinzento, chuvoso, vazio e agora também mais restritivo. A beleza do fumo a sair por entre os dedos numa mesa de café onde predomina esse odor inebriante, entre uma folha e outra de jornal, deixou de ser possível. E isso entristece-me.
Estamos todos cada vez mais pobres, cada vez mais feios e velhos, desgastados tanto que nem vigor há para erguermos a voz.
Do outro lado da barricada estamos cada vez mais clean, mais ricos e sofisticados, mais tecnológicos. A cada dia mais cagões.
E eu, onde estou? Abano a corda, a ver se resulta. A ver se resulta.
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