Nem tudo é o que parece, já se sabe.
Neste carrossel de veludo acetinado, o forro está roto.
Por vezes sucede olhar mais de perto para algo que admirava ou mesmo, invejava (esse pecado mortal) para dar conta de que afinal, o que aparentava encanto e fascínio, está podre por dentro.
Quando era miúda todos os anos ia ao circo. Era um mundo de fantasia que associava à aventura suprema. Aquela que corresponde a um desafio diário e a uma vivência sempre diferente do comum mortal. Talvez para fugir a essa sensação (a de estar ali naquela dura cadeira de madeira sentada, sentindo-me uma mera comum mortal) sempre tive um pouco alma de artista. E pouco mais.
Na altura via o circo como um universo fascinante e glamouroso, em que os artistas viveriam em constante exaltação e aventura.
Os meus favoritos eram os trapezistas. Ainda hoje estremeço ao soar desta palavra.
t r a p e z i s ta.
Depois de muito desejar conhecer 'o outro lado', que idealizava ainda mais emocionante, porque real, palpável - descobri que não era bem assim.
Os fatos cintilantes e a maquiagem garrida escondiam uma vida diferente, é certo, mas sem banheiras, livros e outros elementos civilizacionais que considero importantes. E ainda - eles tinham o seu próprio quotidiano. Tão banal quanto para mim pôr a mochila às costas e ir para escola aprender a multiplicar.
Mais tarde apercebi-me ainda da questão dos animais. Seriam felizes ali, privados da sua liberdade, do seu mundo, da sua família e amigos - do seu habitat? Estariam ali de livre vontade? Dificilmente, a avaliar pelo chicote...
A tomada de consciência de que a vida do circo não era mágica foi mil vezes mais intensa e desconcertante do que descobrir que não havia pai natal.
Tudo passei a olhar com outros olhos, mas ainda hoje me engano.
Há seja quem dotado de tal ego, capaz de dizer as maiores babaridades e ainda fazer outros crer que sim, que a pessoa é iluminada. Convencendo os outros, vão-se convencendo a si próprios, perpetuando o alimento do ego num círculo sem fim.
I Wich. RP rule the world...
Perto de alguns artistóides, os homens e mulheres do circo são banais, na sua capacidade de transformar o objecto em magia. Por um momento, é certo.
Ainda assim, beleza etérea, que se retém, que dá e alimenta. Não uma rajada de vento desagradável que se quer impôr. Uma feia ilusão.
Olhando de perto, está oco. Basta um sopro e descompõe-se o discurso, depois a ideia e a imagem. O Rei vai nu! Mas fala mal dos trapos de quem o contorna.
Há os que pensam, os que executam e os que mostram. Todos são precisos.
Mas alguns podiamcalar-se um pouco, que ensurdecem.
E um ego há-de ser do tamanho de uma ervilha?
E isto, é um bastidor?
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