e s f e r a o b t u s a

Filha da caixa em exílio involuntário

domingo, 20 de janeiro de 2008

Liquidação total

Segue de mala em riste, bem grande. Gloss, escova, grande carteira cheia de cartões de cliente, 3 telemóveis, pacote de pastilhas elásticas e lista de compras fazem peso no malão, prontas pró arremesso. Os saltos agulha completam o traje de batalha urbana que se trava dentro de uma loja em saldos. Se houver leopardo à mistura, melhor ainda. Roupa, calçado e malas são as preferidas, Mas há outras.



Olhos furtivos remexem cada peça de roupa como se hoje fosse o último dia na terra dos saldos. As únicas são muito solicitadas, podendo mesmo levar a um ligeiro início de guerra entre duas caçadoras de trapos. Olhos nos olhos, um na rival, outro na camisola, ganha a mais arisca, para até mais tarde, no vestuário, decidir levar antes uma das outras 27 peças que experimentou. Ou nenhuma. Ou as 27.

Tenho notado que o conceito de 'última oportunidade' funciona bem. Mas nem era preciso escreverem tal coisa nas montras, porque essa parece ser a única mensagem que paira sobre a cabeça das muitas fêmeas que correm para as suas lojas favoritas em busca do discount da estação.



Não terão chegado os mil sacos de prendas do natal para tudo o que é prima, tia, sobrinha, afilhado e colega do trabalho e vizinho e amiga e senhor do quiosque? As discussões intermináveis porque 10 milhões de pessoas não conseguem raciocinar se forem todas ao mesmo tempo às compras? Nem sequer concretizar com sucesso as ditas? Se calhar vai-se agora comprar uma pecinha low cost para relaxar do stress natalício. Brilha o cartão de crédito de máquina em máquina. Como é de plástico, nem se dá conta que vai esgotando, esgotando... Mas é tão lindo e agora barato, como resistir?



Olho para o lado e, um pouco mais acima dos sacos há um stencil 'o consumismo tirou-me a virgindade'. Ainda vou a pensar nisto quando me deparo com um claro: 'vive mais, consome menos'.

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