e s f e r a o b t u s a

Filha da caixa em exílio involuntário

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Segunda-feira

Sinto-me assoberbada pela vida, pela ideia que dela tenho numa segunda-feira pela manhã. Assoberbada pelo quebrar do vigor esperançoso do fim de semana. Assoberbada por hoje e por amanhã pelo que está e pelo que há-de vir, pelo que passou e pelo que já nunca sucederá.

Assoberbada pela vida quotidiana, pelos gestos que se repetem, à mesma hora, que demoram o mesmo tempo, que ocupam o mesmo espaço mental, que nos roubam alento para o que verdadeiramente interessa. Assoberbada por ter de pôr um pé a seguir ao outro e erguer a cabeça e assoberbada por ter de agradecer que assim possa ser. Assoberbada a cada garfada que dou no prato cheio, pela toalha que reflete sempre a mesma expressão apática, pela faca que não cessa de serrar para a frente e para trás, pelo guardanapo usa e deita fora que é igual a mil outros e não mais vou ver. Assoberbada por pensar que assim ainda é bom, que pode ser muito pior. Assoberbada com o incontrolável dia-a-dia tocado ao teclado do computador. Assoberbada por algo que antes era o longe risonho e esperançoso, luminoso, aberto, inesperado e desafiante e hoje é o amanhã nubloso e repetido, responsável, cinzento, maduro e sério.

Assoberbada pelas pessoas que comigo se cruzam, pelas muitas vidas que nunca terei, pelos corpos que não habitarei, pelas brilhantes ideias que nunca me ocorrerão, pelos olhos que me viram e pelos que me ignoraram, pelas mentes que me recordam e pelas que me esqueceram, pelos corações em que nunca tocarei.

Assoberbada pelo tempo que o relógio demora a chegar ali e depois como corre célere e imparável, a pique na descida acentuada. Assoberbada pelo que há-de vir, pelo que aí vem, o que há-de vir?

1 comentário:

Anónimo disse...

Assoberbada com o teu post!

Pipinha