Gostavas tanto do Carnaval que todos os anos o preparavas em cima da hora. Eram múltiplas as ideias para criar, dos farropeiros que herdaste, que se turvava a decisão final.
Uma vez desencantaste a coroa de casamento da tua mãe, ainda na primária, na idade em que todas as meninas sonham ser noivas. O resto, uma camisa de dormir semi transparente, e um cortinado translúcido na cabeça, fez as delícias das roupagens inteiras, compradas de propósito para o evento. Essas não te agradavam, tiravam a graça à essência da fantasia, da inovação.
Por isso não fez esmorecer a tua vontade de criar, que continuou sempre a subir até ao dia em que te mascaraste de fogo, e ninguém percebeu.
Ainda antes, um ano foste rainha da sucata.
Depois começaste a adoptar roupagens mais comuns. Apenas reflexo da normalidade instalada na tua vida, da pouca propensão para fantasiar mais longe. As banais hippie, japonesa e islâmica passaram por ti. Agora resta apenas uma peruca azul e uma máscara. E muitos carnavais seguidos sem outra personalidade que não tu, a ignorar a transmissão ao fim da noite da folia brasileira e a olhar de soslaio os sambas que alastram pelo país.
Mas a vontade de ser outro permanece e outros carnavais se seguirão.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
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