e s f e r a o b t u s a

Filha da caixa em exílio involuntário

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A outra Ilha

É domingo e o dia nasce devagar.



Apesar de ser cedo, o buliço emerge das ruas poierentas como a neblina laranja que se ergue do chão por toda a parte.

Há sempre movimento nesta cidade, gente a deslocar-se ou quieta, sentada ou até deitada numa sombra qualquer.

Até quieto, olhar vidrado que parece vazio, simplesmente à espera, braços caídos sobre as pernas, desistentes, parece que se mexe.



Mas é domingo, e vamos à procura do nosso pedaço de sombra, imobilidade e descanso.

Atravessar a cidade é sempre um desafio, mesmo a esta hora lenta da manhã.

Chegamos depressa mas não sem assombro. À nossa espera estão já dezenas que correm pela 'gasosa' e oferecem viagem.

Gritam os seus nomes num desconcerto para marcar lugar, agitam-se afogueados para fazerem seu o que para já é nosso.



Depois, os movimentos são tão céleres quanto possível, mas só não nos agarram por um braço porque o contacto físico aqui, entre nós e eles, é indesejável, para ambas as partes.

O sol já queima e vamos rápido em direcção ao embarcadouro. Espera-nos a espera do costume, antes do oásis, e mais uma viagem semi acidentada que abranda cada vez que toca o telemóvel.

Somos 11 num barco para seis e o 'capitão' parece não ter dormido hoje. Ou será louco? Queria embarcar-nos sem gasolina, talvez para mais uma espera a meio do caminho, entre água e mais nada.

A ondulação é leve da curta velocidade e dos poucos que ainda se cruzam conosco a esta hora curta de uma manhã de domingo sonolenta.

Dormitam ainda as casas coloridas que espreitam por entre palmeiras à beira-mar. Respira-se o aroma relaxante de um dia à sombra da bananeira.



Sem precalços, chegamos ao paraíso anunciado. O bar da praia faz o resto, com as suas espreguiçadeiras de madeira estofadas de branco que parece ainda mais imaculado a esta luz do amanhecer. Os seus sofás de almofadas grandes e coloridas a emuldurar o cenário convidam a um recosto. Há também uma rede para os mais nostálgicos e estruturas que prometem sombras frescas para mais logo.



Um café para ruborescer e depois o mar, à contra-costa, claro quente e convidativo como uma promessa. Mergulha, nada e flutua na cadência molenga das ondas que se encostam de mansinho à areia, sem pressas nem agressões.



O clima edílico termina ao almoço, com o bar repousante transformado em poiso de mil brancos barulhentos e silenciosas vendedoras de cores em forma de tecidos. A música continua a convidar. Podemos fundir-nos entre o conforto exterior, o som e a paisagem, mas por ora só se ignorarmos os outros todos que querem o mesmo.



Não há sinais de África neste pedaço de Mussulo, só do seu escape, da sua tentativa de fuga segura para quem vem de fora. Ainda assim é agradável.



Fugimos depois deste buliço, voltam a correr atrás de nós, a chamar-se pelos nomes, a exigir o seu quinhão, embarcamos, pagamos, saímos, estamos de volta à cidade buliçosa, barulhenta e quieta, move-se gente aqui e ali também, sem parar, aos solavancos, lá chegamos, já cai ligeiramente o dia na sua meia luz marota, sem despedidas. Amanhã é segunda-feira.

1 comentário:

Palaroide disse...

E não houve um cafe:(