e s f e r a o b t u s a

Filha da caixa em exílio involuntário

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A negra viúva do lixo

Tinha passado quase incólume pelos anos 80, a década mais desafogada que viveu, familiar quanto possível, mas foi nos 90 que tudo desabou. A morte do seu menino dos olhos mais novo num acidente de carro virou a vida da família do avesso.



Os outros filhos decidiram curar a sua dor junto das suas famílias, que já não cabiam no pequeno espaço daquela ilha invisível entre as casas caídas da cidade.



A mais velha conseguira vingar, resistir ao canto pouco iluminado em que sempre vivera, aos gemidos ou aos gritos de dor que ouvia às noites, logo ali do outro lado da parede, e era agora uma mal paga advogada, o que mesmo assim lhe valia o bastante para não regressar com os seus dois filhos tão limpinhos e vestidos de novo àquela casa de má memória.



O outro emigrara para longe, para outro submundo inóspito, mas noutro país onde até o submundo é mais limpo, civilizado e rentável. O rendimento mínimo lá do sítio, dizia-se, dava para viver 'à larga', com o salário da mulher que limpava sanitas aos alemães. A viagem era longa, com os rabinos a gritar impropérios a cada quilómetro, e por isso raras vezes se juntavam.



Um telefonema no natal era tudo o que lhes restava, e de vez em quando também, por coincidência, no aniversário da data que mudara a todos a vida. E mais do que a todos, à mãe, agora sempre negra. De vez em quando lá pegava na magra colecção de fotografias dos netos, que pouco ia engrossando de ano para ano.



Nunca foi mulher de se vergar aos infortúnios do destino, mas o golpe demasiado duro da vida desmotivou-a da lenga lenga do pano do pó e tirou-lhe a força para empurrar a cada vez mais lenta esfregona que há décadas empunhava com vigor nas casas bonitas dos outros.



Às vezes trazia de lá coisas para si boas, que os outros não queriam. Nunca pedia nada, nem sequer aceitava, preferia levar para o lixo aqueles restos dos outros e depois trazê-los discretamente para casa, orgulhosa.

Esses diferentes objectos que marcavam com pelo menos uma década de diferença as tendências do mundo enchiam-lhe a casa.



O indiferente companheiro que com ela partilhava a cama desde que se lembrava de ser mulher continuou a ir afogar para a taberna o desgosto de se ver sem o menino e os outros desgostos de toda a vida, sem encontrar nunca resolução no fundo do copo.

Tudo o que lhe fez foram três filhos, além de amparar aquele dia-a-dia que nunca muda para melhor. De vez em quando dava-lhe umas bofetadas, se começava a resingar, mas nunca foi um homem violento. Muitas vezes trazia-lhe coisas boas, inúteis para os patrões.



Raramente falavam, a não ser que ele viesse mais entusiasmado da taberna, com alguma história acalentada pela aguardente em vez do vinho. Mas era de pouca dura até cair inerte no maple meio roto, as florzinhas desbotadas, em frente à televisão.

O que ele acabou por encontrar no fundo do copo, com a insistência dos dias de reforma, foi uma cirrose que lhe tirou a pouca vontade de viver que ainda resistia.



Alguns meses penosos a caminho do hospital e acabou-se tudo. Ficou sozinha, a contemplar as magras fotos que pendiam tortas das paredes onde tudo ainda fazia lembrar o Miguel.



A apatia tomou conta dela, que já não limpava a casa dos outros há tempos, e deixou de limpar a sua também, o que lhe valeu, primeiro, a compaixão das vizinhas e, depois, as críticas à boca pequena.

Cada vez mais negra, sem casas dos outros para enfeitar a sua nem nada de bom que se aproveitasse dos dias tediosos que se entrelaçavam uns nos outros sem diferença, deixou também de se lavar. Para quê?



O preto baço que nunca despia e que a tornava ainda mais magra no corpo mindinho, perdia-se por vezes entre a imundice que a rodeava. Começou por optar pelas noites, não porque havia menos gente na rua, não por vergonha, mas porque era a partir da noite que os tesouros mais apareciam. Os tesouros que os outros não queriam, e por isso deitavam fora.



As vizinhas, fartas daquele cheiro, a refilar à boca grande, até chegaram a fazer queixa à Câmara, e um dia apareceram lá umas senhoras muito limpinhas da segurança social. Mas ela não queria saber, nem sair. Lá ficou, cabelo sempre desgrenhado atrás, imóvel à frente, aborrecida de dia, vigilante de noite, quando os baús verdes escondiam os melhores mistérios, e perdia bom tempo a descobri-los - os olhos pequeninos brilhantes - entre os escombros dos outros.

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