O bife estava tão rijo que requeria corte insistente. Mal o metal o trespassava, tal era o esforço, logo outro metal o trazia à boca, num movimento que assim se repetia até o prato estar limpo.
Nos últimos dias as refeições tinham sido sempre assim, nada ligeiras. Ora era o bife suculento acometido de denso molho, a bela batata frita a acompanhar, ou era o saboroso marisco, ou os petiscozinhos a toda a hora, que a gula não é só coisa do passado e é preciso viver ainda que todo o prazer seja pecado.
Naquele dia continuava o fausto, não sem a culpa das formas cada vez mais redondas que se insinuavam.
E se é prazer o prato, também o é a vista, quando se auto-aprecia o porte, e cada vez mais se aprecia o alheio do que o próprio.
A chegada ainda ténue do calor, fazia no entanto antever dias de pouca roupa, visão de horror que logo tomou conta dela. Impossível comparecer no longo areal com aquelas fartas carnes em que entretanto o seu perfil esguio se transformara.
É então que lê sobre o burquini, e quase lhe apetece passar a ter outro tipo de convicções religiosas. O fato de corpo inteiro para ir ao banho parece um aliado perfeito, não só para a virtude como para a vergonha.
Idealizado para quem quer ir à praia e nadar sem ser obrigada a farta roupa de algodão que, pesada, cobre todo o corpo, podia bem servir os interesses mais a ocidente, de quem não quer tornar-se, aos olhos dos outros, com o sol a reluzir na pele, um mero amontoado de flacidez.
Será que vira moda revolucionária a junção de uma burka com um bikini? O ocidente nunca o permitiria, embora siga sem mácula o culto de uma imagem cada vez mais distante da realidade.

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