quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Ternamente
Podia sentir o tempo a correr-me pelas veias entre o suor das ruas e o calor que se evaporava de cada um daqueles andantes apressados, fora de tempo aquele calor, como a sensação que tinha debaixo da pele.
There are more things.
Pouco ou nada é o que parece se olhar só à superfície.
Escrevo para ti, que persistes em mim e insistes. Escrevo palavras tontas que nada dizem. De tanto ler, de ler tão bom, é difícil expressar-me por poucas palavras que façam sentido. Todas as possíveis conjugações geniais de palavras para dizer que gosto de ti já foram escritas por alguém com mais talento.
O vento abana-me a mente e o vestido esvoaça sem querer. Estou parada no cimo de uma rua cinzenta do chão ao telhado, e agora as pessoas que passam demoram-se nas montras e os seus passos vagarosos mostram que não querem ir naquele caminho.
Ninguém sua, não há cheiro a corpo, só a cosmético.
Já tudo foi inventado e nada de novo se pode criar nesta bruma cinza e apática. Um laivo de originalidade é confundido com qualquer coisa de realmente bom, à falta de melhor. Uma pincelada de azul, esbatido.
Não sei dizer mais do que isto. Cada vez que mais leio e aprendo, menos sei escrever a palavra certa, não é por falta de sentimento.
Espero até que a noite caia. Espero que não seja tarde demais. Escrevo para ti que persistes e por isso mereces. Escrevo como quem não sabe dar uso à palavra. Escrevo-te porque ainda assim é a melhor maneira que tenho para dizer que me faltas. Como se fosse uma carta à antiga.
Ama-me ternamente, diz ela com a sua voz de veludo. Depois promete que é para sempre e estraga tudo.
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