sexta-feira, 12 de junho de 2009
A massa tenra da D. Mariana
Mil cabelos brancos, muitos mais brancos que negros contam pouco sobre os mais de 70 cacimbos da D. Mariana. Passou por duas guerras e quatro partos, viveu sabendo da outra e ainda aqui está, forte como um imbondeiro, percorrendo a sua peculiar normalidade.
D. Mariana é esperta e sabida, experimentada nos chichés da existência urbana e vive rodeada de gente há muitos anos. Marianita, a menina meia atrasada que se fez mulher passando a ferro a roupa de toda a família deve o nome à patroa que é também mãe, e foi quem se descoseu, do seu resumido e curto entendimento, desvendando a outra que durante anos deu más noites à D. Mariana e desmoronou a ilusão de uma existência que de fora dava ares de perfeita. Marianita é a mais constante dos 'filhos' de D. Mariana.
D. Mariana comanda o pequeno exército que mantém a sua larga e verde vivenda livre de indigentes e sujidade. Ordena o quase mudo segurança que todo o dia espera, imóvel, raramente lendo um jornal antigo, que nada aconteça. D. Mariana orienta Vitória e Fátima, que lentamento limpam o eterno pó daquela casa grande, lavam o pátio, cozinham as refeições para a agora reduzida família e de vez em quando se dedicam a preparar para armazenar centenas de rissóis, croquetes, bolos de diversas cores e variedades e deliciosos pastéis de massa tenra que D. Mariana faz questão de ter de reserva.
D. Mariana passou por duas guerras diferentes, e mais algumas de menor violência aparente, por isso D. Mariana conhece os meandros do toma lá dá cá de esquina, do contacto que permite trocar queijo por cebolas e latas de cerveja por bilhetes de avião para o estrangeiro. D. Mariana sabe com negociar os tecidos e as linhas com que cose bonitos trajes, tradicionais ou modernos, de inspiração europeia ou africana consoante o gosto das suas clientes. D. Mariana passa o dia a forrar de formas e cores o manequim que tem no alpendre, ajeitando aqui e cosendo acolá, fazendo de um corte uma blusa, e não gosta de ser interrompida pelas mulheres que em vez de silenciosamente experimentarem a roupa que será sua, à sua medida, preferem falar sobre o zeitgeist luandense privado e das outras que as outras, e elas próprias, têm de ignorar. D. Mariana é uma mulher prática e pouco dada a romantismos, que os perdeu cedo ao descobrir o que era ser mulher. Apesar de fria, D. Mariana é doce, uma doçura herança dos filhos que vivem todos longe, do único momento em que pôde e quis ser amorosa, que foi tão só o da infância dos seus rebentos. Um quarto, o último, que marcou o fim dessa possibilidade entre ela e o seu bem parecido e distante marido, morreu depois de nascer, deixando no peito já arrefecido de D. Mariana um pedaço maior de gelo que nada, nem agora os netos, conseguiu derreter.
D. Mariana teve de aprender cedo a combater os males desta vida, os seus e os dos outros. D. Mariana é uma boa vizinha que oferece saborosos pastéis de massa tenra acabados de fritar da sua farta reserva. D. Mariana parece uma velhota simpática embora arisca, quedada no seu alpendre pela idade, absorta em dar forma aos panos que lhe chegam e em manter em funcionamento a intrincada engrenagem da sua farta casa sem falhas.
D. Mariana parece apenas uma velhota pacífica e simpática. D. Mariana ainda pensa na guerra e na outra e no filho que vive na América, e na filha que vive em Lisboa e na outra que casou na Holanda. D. Mariana às vezes, raramente, viaja para os visitar. D. Mariana gosta de comer pastéis de massa tenra às escondidas e depois dizer que foram as empregadas e dar-lhes um valente raspanete. Um dia, chegava a guerra ao fim mas os ânimos continuavam exaltados, D. Mariana deu conta de um bandido no jardim. D. Mariana chamou o guarda meio adorecido que acorreu ainda entorpecido e devagar. D. Mariana não teve medo do bandido e fez o que se deve fazer com os bandidos. O homem roubava roupa que estava na corda, e sabe-se lá o que faria a seguir. D. Mariana prendeu-lhe as mãos, com a ajuda titubeante do guarda. D. Mariana não o deixou fugir. D. Mariana pegou na mangueira de lavar o pátio e bateu no bandido. D. Mariana não ouviu os lamentos do bandido. D. Mariana bateu-lhe com a mangueira até ele mal se poder mexer. Dona Mariana mandou-o embora com esta lição e o bandido não conseguiu correr dali para fora. O bandido arrastou-se pelo pátio e nunca mais voltou. D. Mariana lembra-se bem do bandido e da lição exemplar que lhe deu, para nunca mais voltar a assombrar o seu pátio onde costura e come sorrateiramente pastéis de massa tenra.
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