e s f e r a o b t u s a

Filha da caixa em exílio involuntário

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Fadas e fantasmas

Porque a vida é muito menos feita de palavras do que de imagens, a minha muito mais, mas não a maioria das vidas, aqui ficam dois exemplos que me fizeram viajar até um mundo líquido e frágil, submerso por camadas maduras, que por vezes julgo esquecido. Sobre a segunda pode explorar-se aqui.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Personagens

Alapardada naquela cadeira de verga já corroída do pó e do uso, não parava de se ajeitar até que finalmente a posição certa fez-se sentir e pôde continuar a sua semi empolgante leitura de um livro há muito morto, porque cheio de ideias de outros tempos que o autor - também sob sete palmos de terra - insistiu em marcar no tempo.

Ainda assim apreciava aquela cadência de gerações que se sucediam, como se uma vida se resumisse a dois ou três dias marcantes numa sequência de outros mil sempre iguais. Eram os nascimentos, o florescer do amor - a fase mais insistida e vincada, em que mais se definiam as personagens - e o casamento, a que se seguiam novos nascimentos.

Em comum apenas um espaço, que vai sobrevivendo a épocas e vontades, a talentos e a falhas, a gerações sucessivas de pessoas que se perdem no tempo e na memória, e só continuam a existir porque retratadas por palavras ou pinturas, marcas indeléveis e provas da sua respiração.

Mais uma mexidela, que a cadeira balança um pouco e podia ser mais confortável, e olha de novo para a história, sentindo-se quase Deus a assistir ao desenrolar de tantas vidas, olhando de cima, e por isso em perspectiva. Não fossem os escapes fumarentos e o prédio logo à frente, a fazer sombra, e sentiria muito melhor a chegada da primavera, que ainda assim se deixa antever nas parcas flores que vão surgindo em pequenos vasos, que para esse mesmo efeito, tentativa de comunhão com a natureza, cultivou naquela varanda citadina.

Às vezes olha para a sua vida nesse ângulo, futuro, e decide com base no que alguém escreveria, um dia, mais tarde, num livro, sobre esses breves e frágeis momentos em que povoou este mundo. E então quer ser heroína.

Outras vezes gostava que o seu quotidiano não passasse de linear, comum e simples, a+b=c e está cumprido o desígnio. Apenas personagem secundária.

A vida não passa disso mesmo, um ângulo pelo qual vimos o tempo e o que queremos fazer dele. E, se na maioria das vezes pode não estar nas nossas mãos essa escolha, quando está pode tornar-se dramática a opção por imprevisíveis os cenários que o futuro há-de desenhar.

Se cada um fosse apenas e só responsável pela realidade da sua história, autor da sua própria personagem e enredo, escritor do seu presente e futuro, sem interferências circunstanciais e dos outros que insistem em fazer parte da nossa vida, a moldá-la, e nós a deixarmos porque os amamos e não podemos viver sem eles, os que nos pariram e deram início ao argumento, e os que connosco partilharam a alcova, os que elegemos para caminhar a nosso lado, os que surgem inesperadamente e nos arrebatam, os que insistimos ignorar, seria tudo mais fácil?

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Air ou o sabor do tempo

O que pensar quando há mais de um ano não compramos - nem sacamos - música. O que deixa antever a compilação de emoções que só surge à flor da pele quando o que ouvimos tem, de preferência, pelo menos uma primeira aparição há uma década?

Nem sequer mi gustan particularmente os anos 90 e, no entanto, em termos musicais, lá está o que me apetece ouvir e sentir. Não por me transportar para lá, mas por me elevar aqui e agora.

Há aquela celebração que se faz à revelia das circunstâncias, só por teimosia, só porque sim, só com a desculpa de a vida ser agora, neste instante, e demasiado curta, tão célere que é preciso saborear cada momento como nos apetece, já. Nem que se trate de uma celebração efémera, nem que não haja copo erguido à nossa frente, nem que a validação ao que sentimos tenha apenas eco naquela parede verde que nos responde com um sorriso compreensivo mas descabido.

Nem que o nosso próprio humor esteja já tão imbuido de non sense que deixámos de activar as palavras certas naquele preciso momento, do hábito enraizado de falarmos conosco próprios.

E o som vai correndo e respondendo às nossas ânsias, moldando-as e submetendo-as ao jugo incontornável da sua verdade.

É por isso, creio, que preciso de ouvir qualquer coisa com densidade e leveza certas, que levem a bom porto a minha constante meditação sobre as coisas inatingíveis, que parecem nunca surgir, ou que não posso tocar, porque são apenas névoa passada e imperfeita.

Como se certas canções pedissem que fizéssemos tudo de novo, numa reconstrução surpresa. Outras não, asseguram-nos que este foi o caminho e, mais, que ainda é.

Acho que é aqui que começamos a ter consciencia do tempo que corre sem tréguas. Quando as referências estruturantes têm 10 anos, e as iniciáticas 20, pelo menos. se olharmos ligeiramente mais longe, vemos outro tanto tempo, , à espera lá à frentetão desinteressante quanto desinovador.

Questiono a relevância do tempo, embora não duvide dela. Acho que então se percebe que o que outrora era o limite é hoje impensável, e o que outrora era a loucura é hoje a decadência.

Resta-nos o som que eleva e traz à terra o espírito. Esse sim é o mesmo, sempre duro, mas volátil, sedento e imutável, mas agora camuflado pela definição pré concebida de ser, definida para cada tempo em que cá estamos.

A tez imperfeita e a carteira cheia de promessas que não me elevam mostram que estou lá.

the tigger man is getting lost without you, there's no release