e s f e r a o b t u s a

Filha da caixa em exílio involuntário

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Personagens

Alapardada naquela cadeira de verga já corroída do pó e do uso, não parava de se ajeitar até que finalmente a posição certa fez-se sentir e pôde continuar a sua semi empolgante leitura de um livro há muito morto, porque cheio de ideias de outros tempos que o autor - também sob sete palmos de terra - insistiu em marcar no tempo.

Ainda assim apreciava aquela cadência de gerações que se sucediam, como se uma vida se resumisse a dois ou três dias marcantes numa sequência de outros mil sempre iguais. Eram os nascimentos, o florescer do amor - a fase mais insistida e vincada, em que mais se definiam as personagens - e o casamento, a que se seguiam novos nascimentos.

Em comum apenas um espaço, que vai sobrevivendo a épocas e vontades, a talentos e a falhas, a gerações sucessivas de pessoas que se perdem no tempo e na memória, e só continuam a existir porque retratadas por palavras ou pinturas, marcas indeléveis e provas da sua respiração.

Mais uma mexidela, que a cadeira balança um pouco e podia ser mais confortável, e olha de novo para a história, sentindo-se quase Deus a assistir ao desenrolar de tantas vidas, olhando de cima, e por isso em perspectiva. Não fossem os escapes fumarentos e o prédio logo à frente, a fazer sombra, e sentiria muito melhor a chegada da primavera, que ainda assim se deixa antever nas parcas flores que vão surgindo em pequenos vasos, que para esse mesmo efeito, tentativa de comunhão com a natureza, cultivou naquela varanda citadina.

Às vezes olha para a sua vida nesse ângulo, futuro, e decide com base no que alguém escreveria, um dia, mais tarde, num livro, sobre esses breves e frágeis momentos em que povoou este mundo. E então quer ser heroína.

Outras vezes gostava que o seu quotidiano não passasse de linear, comum e simples, a+b=c e está cumprido o desígnio. Apenas personagem secundária.

A vida não passa disso mesmo, um ângulo pelo qual vimos o tempo e o que queremos fazer dele. E, se na maioria das vezes pode não estar nas nossas mãos essa escolha, quando está pode tornar-se dramática a opção por imprevisíveis os cenários que o futuro há-de desenhar.

Se cada um fosse apenas e só responsável pela realidade da sua história, autor da sua própria personagem e enredo, escritor do seu presente e futuro, sem interferências circunstanciais e dos outros que insistem em fazer parte da nossa vida, a moldá-la, e nós a deixarmos porque os amamos e não podemos viver sem eles, os que nos pariram e deram início ao argumento, e os que connosco partilharam a alcova, os que elegemos para caminhar a nosso lado, os que surgem inesperadamente e nos arrebatam, os que insistimos ignorar, seria tudo mais fácil?

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