O olhar vermelho e baço pouco mostrava do passado trocista.
Agora, todo o seu universo não passava de uma neblina sobre um cubo, cujas únicas variações se faziam no que estava retido na memória, e onde raramente entrava um raio de luz feliz.
Na verdade, apesar de outros tempos mais gloriosos no passado, a vida seguira o seu curso, e a mudança não era tão grande quanto se poderia prever, tendo estado presente em ambos os momentos.
Sempre havia uma limitação natural a tudo o que não lhe dissesse directamente respeito. Ou atrapalhasse. É isso que espelham os olhares, mesmo os mais antigos. Há coisas que não mudam nunca, e muito menos pessoas.
O tempo não muda, realça, vinca. Se acaba por mostrar antes isto do que aquilo, essa é a diferença que faz.
Bem se via ali a sua revolta, a revolta vã de se achar demasiado interessante para aquele cenário. Mal pôde, mal a oportunidade surgiu, e quando já não havia porque se conter- pensou - vomitou o seu veneno acumulado durante anos contra tudo aquilo, mas em doses pequenas, para o prolongar no tempo e no efeito.
Tocou os que desprezava da pior forma, e quanto mais vomitava, mas o líquido amargo se voltava contra si.
Nunca chegou a perceber que quanto mais se queria afastar daquela imagem feia e desadequada, como uma parede com tinta branca a estalar, que por baixo deixa antever o cimento cinzento escuro, mais essa imagem se aproximava, e não havia nem há ainda lima que possa salvar. Simplesmente porque nunca foi o que imaginou ser. Embora continue a crer que sim.
Nunca conseguiu fugir, apenas distanciar-se. Desde sempre, nos momentos em que a mente, e por vezes o corpo, pareciam mostrar-lhe que já estava mais longe, sorria. Mas como se tratava apenas de uma fina e frágil, só aparente camada, foi por pouco.
A tentar fugir, tornou-se pior. Espelhou nos outros a pior imagem que formou da própria mente turva. Ficou só, engasgou-se no seu próprio vómito mas continuou a lançar dor e nada e a seguir mágoa e depois desprezo, como se nada mais existisse.
Ainda assim, as espessas barreiras daquele cubo nada deixavam ver para além de si.
O tempo passa e a trama continua a adensar-se. É já tão espessa que não há como arrancar aquele tumor enraizado, não há como tocar aquele peito frio de gelo. Que fazer?
___ ... ___
A luz acendeu-se na sua mente naquele momento. Não havia palavra, apenas intuição, e via agora - mas sempre chega a hora de juntar as peças do puzzle. Queria gritar - agora sim! faz sentido! Como lhe acontecera outrora, para o pior. Sabia que não o poderia fazer - gritá-lo bem alto, não havia qualquer erro de avaliação, o que piorava tudo ainda mais se possível - e que o risco era demasiado alto, traçado direito mas percebido em ziguezague. Deixa-se ficar na serenidade de que o seu coração afinal não é injusto e azedo, e que há momentos, tantos, simplesmente impossíveis de esquecer ou perdoar. E, mais ainda, que não se podem mudar.

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